Professores e especialistas debatem os conceitos e rumos da Extensão na Ufes. E destacam a necessidade de superar o seu tradicional caráter assistencialista.
Glacieri Carraretto
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Marcos Alves
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Natalia Gadiolli
natigadiolli@gmail.com
Por definição, a Extensão é um dos três pilares da universidade, junto com o Ensino e a Pesquisa. É a mediação entre sociedade e universidade, que tem a obrigação de transpor seus muros e levar à primeira o conhecimento, os serviços e os benefícios que dela se originam, dando uma resposta de seu papel social.
De acordo com o Fórum Nacional de Pró-Reitores de Extensão das Universidades Públicas de 2001, a Extensão é um processo educativo, cultural e científico que articula o Ensino e a Pesquisa de forma indissociável. No entanto, na Ufes, a Extensão enfrenta alguns problemas, desde a associação deste pilar ao assistencialismo até a divulgação mal realizada, que impede que alunos tenham conhecimento do assunto.
Para o professor do Departamento de Morfologia da Ufes e responsável pelo projeto Corpo Humano, Athelson Stefanon Bittencourt, a Extensão tem o potencial de fazer com que os produtos gerados dentro da universidade não fiquem restritos aos limites físicos da instituição ou beneficiem exclusivamente aqueles que nela estudam ou trabalham, mas alerta: “Na maioria das vezes isso não se cumpre, a meu ver, por falta de objetivos predeterminados, planejamento e integração de ações do Ensino, da Extensão e da Pesquisa”.
Assistencialismo
Seja pelo caráter das ações que realiza ou pela concentração de atividades em determinadas áreas de atuação, a Extensão é, em alguns casos, associada pejorativamente ao termo assistencialismo. A discussão sobre o assunto é polêmica e as opiniões, diversas.
O professor do curso de Comunicação da Ufes e responsável pelo projeto Conexões de Saberes, Cleber Carminatti lembra que o Ensino, a Pesquisa e a Extensão nunca tiveram um tratamento homogêneo: “A universidade sempre se concentrou muito na graduação. A partir dos anos 90, com as políticas de desenvolvimento da pesquisa e da necessidade de capacitar professores, a Pesquisa ganha uma dimensão mais significativa nas universidades”.
Já a extensão, para Carminatti, se constituiu muito no que se chama de Extensão assistencialista, que se vê em muitas ações dos cursos de medicina ou odontologia, por exemplo. “Ela se firmou muito no campo da saúde e sempre teve pouquíssima verba”, explica.
O professor destaca ainda que, nesse universo, se criou uma Extensão muito paternalista e assistencialista, com atividades que muitas vezes têm o caráter de simples prestações de serviços para a comunidade, quando deveria também problematizar, gerar reflexão, intervir efetivamente e despertar uma certa autonomia nos assistidos.
José Aparecido Cirillo, atual Pró-reitor de Extensão da Ufes, reconhece que a matriz da ação de Extensão originalmente surge no atendimento de cunho mais assistencialista, um cunho de menos transformação da realidade. No entanto, para o Pró-reitor, essas ações também são importantes e têm o seu papel. “Existem coisas emergenciais que precisam ser tratadas, e alguém tem que ir lá e fazer. Além disso, automaticamente, essa ação tem uma influência na formação de quem a pratica, mesmo que seja a de fazer com que o sujeito perceba qual é a realidade nua e crua deste país. Isso vai afetar diretamente a formação desta pessoa”, argumenta.
Pelo fato de tratar da própria concepção de mundo da pessoa que pratica a ação, diz o Pró-reitor, a dinâmica da Extensão já deixa de ser propriamente assistencialista. Cirillo, entretanto, lembra: “A ação de uma Pró-Reitoria de Extensão de uma universidade tem de ir para muito além disso. Existe a importância desse trabalho, porque algumas atividades assistenciais têm de ser feitas, e a universidade não pode se negar a esse papel. Mas, não se pode concentrar só nisso e contar que quem pratica a ação vai encontrar sempre um estímulo que faça com que ele promova alguma alteração da realidade”.
Infográfico mostra a atuação da PROEX no ES
Concentração de ações
Uma das características que se nota nas estatísticas sobre a Extensão na Ufes (confira os infográficos) é a concentração de ações em determinadas áreas ou mesmo centros. Das 378 ações registradas no ano de 2007, 123 eram da área de Educação e 118, da Saúde. No mesmo ano, Trabalho contou com apenas 6 registros.
A Extensão de acordo com as oito áreas temáticas.
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Diante de tal fato, o pró-reitor Aparecido José Cirilo argumenta que essa predominância na Saúde se explica, em parte, por uma tradição desta universidade: “Boa parte dos pró-reitores de extensão foram da área de saúde, então há uma certa relevância nesta concentração. Isso, claro, sem discutir o mérito da área”.
A disparidade também é vista na distribuição por centros. Enquanto o CCHN tem registradas 73 ações, no CT registram-se apenas 13. De acordo com o Professor Roberto Garcia Simões, especialista em políticas públicas, isso também é reflexo da receptividade da Extensão em determinados cursos. “Um curso voltado para a área social e que tem uma interação maior com a sociedade está mais ‘aberto’ às atividades de Extensão, e o mesmo vale para os Centros”, explica.
Tipos e números de ações extensionistas por centros.
Divulgação das atividades extensionistas
Segundo o próprio Pró-reitor de Extensão, Aparecido José Cirillo, outro problema enfrentado hoje pela Extensão é a sua má divulgação. Isso, informa o Pró-reitor, impede que muitos alunos tenham conhecimento do que é realmente a Extensão e qual o seu papel.
Cirillo informa que a PROEX tem planos de lançar um manual sobre a Extensão para ser distribuído entre a comunidade acadêmica e os freqüentadores da universidade, além de disponibilizá-lo na internet. O manual deverá apresentar de forma simples a estrutura da Proex, as ações que podem ser feitas na Extensão e quais os procedimentos a serem seguidos pelos interessados em participar.
Para o professor Roberto Garcia Simões, “a falta de conhecimento dos alunos em relação à Extensão, é consequência da falta de aproximação entre a instituição e os alunos”. O especialista em políticas públicas aponta que para evitar que casos como o do estudante citado acima se repita, é preciso combinar três coisas: a divulgação da Extensão, o estímulo aos alunos e o esclarecimento acerca de qual é o papel de cada um dos elementos que compõe o chamado tripé sustentador da universidade (o Ensino, a Pesquisa e a Extensão).
Como se vê, a Extensão na Ufes tem uma série de desafios a serem trabalhados, e a maneira como serão encarados esses desafios é que vai determinar o cumprimento ou não de seu verdadeiro papel. O que há de certeza neste momento é que, como frisado pelo professor Athelson Stefanon Bittencourt, “a universidade, através da Extensão, tem um papel social incalculável, pois ela é a principal geradora de conhecimentos, tecnologias e inovações que podem melhorar a qualidade de vida das pessoas”.
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