A UFES e a nova realidade da reserva de vagas

Por: Helbert Paulino e Jirlan Biazatti

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“Bom dia! Gostaríamos de fazer algumas perguntas em relação ao sistema de reservas de vagas no vestibular”. Dessa maneira esses dois repórteres tentavam abordar os alunos que fizeram parte da primeira leva de reservistas da Universidade Federal do Espírito Santo. Olhos arregalados, indisposição, receio e insegurança em falar. Uma nítida sensação de desconforto quanto ao tema estampava-se na face dos universitários. “Meu nome vai aparecer?”, “vou ter que tirar foto?”, foram alguns dos questionamentos feitos. Mas depois o gelo foi sendo quebrado, e alguns alunos concordaram em conversar sobre o assunto.

Caloura do curso de Direto da Ufes, Letícia Silva Amaral, 17 anos, é somente um dos exemplos de vários alunos que percorreram longos caminhos em busca de uma vaga na Universidade. Natural de Ponto Belo, município localizado no extremo norte do Espírito Santo, a exatos 357 km de Vitória, Letícia é uma dos 794 novos estudantes que entraram na Ufes através do sistema de reserva de vagas.

O primeiro vestibular com reserva de vagas da Ufes, realizado no fim do ano passado, permitiu que vários alunos de escolas públicas pudessem enfim realizar o sonho de entrar em uma instituição federal de ensino superior. Os primeiros alunos reservistas iniciaram sua vida acadêmica em março deste ano. De acordo com a secretária de inclusão Social da Ufes, 794 alunos entraram pelo sistema de reserva, e outros 300, que possuíam o perfil, entraram pelo sistema universal de vagas. No ato da matrícula, todos os aprovados por esse sistema tiveram que comprovar, por meio de documentação, os perfis dentro das normas do processo seletivo.

Letícia, que sempre estudou em escolas públicas, contou que foi aprovada no seu primeiro vestibular. “Direito foi o curso que sempre quis fazer. Se não houvesse o sistema de reserva de vagas continuaria tentando até ser aprovada”, disse.

Sérgio Emerson, 17 anos, calouro do curso de Engenharia Civil, contou uma história semelhante. Linharense, o estudante conta que passar no seu primeiro vestibular foi uma grande alegria para ele e sua família, “mesmo sendo reservista”.

Arthur Falcão, aluno do 1º período do curso de Administração, acha que o sistema de reservas é uma ótima oportunidade para democratizar o acesso ao ensino superior público. “Seria injusto competir com outros alunos, em condições de desigualdade no aprendizado”, disse.

E o aluno?

Aí que entra o papel da Secretaria de Inclusão Social, criada em março deste ano. O titular da Secretaria, professor Antônio Carlos Moraes, promete que órgão terá a sensibilidade social para permitir o acesso e permanência do aluno ao curso superior. “A Secretaria de Inclusão Social inicia suas atividades com o objetivo de organizar o processo de inclusão social de todos os alunos da instituição de forma permanente”, garantiu o secretário.

A Secretaria de Inclusão Social informou que o Governo Federal fornecerá uma quantia de R$ 130 milhões, a ser repartida, para todas as universidades que adotaram o sistema de inclusão social, seja por meio de cotas e/ou reserva de vagas, e que a verba que cada universidade vai receber será destinada a investimentos em alimentação, transporte, moradia estudantil, assistência de saúde, e esporte e lazer.

Antônio Carlos apresentou um documento expedido pelo Ministério da Educação, MEC, que libera a quantia de R$ 1.421.000,00 a Ufes para apoio nas despesas de custo dos alunos aprovados pelo sistema de reserva de vagas.

Mas os estudantes, que deveriam ser beneficiados com o repasse, desconhecem essa informação. Custear livros nos valores de R$ 89,00, R$ 250,00 e até R$ 500,00 adotados por professores de alguns cursos, não é fácil para quem teve que comprovar renda de até sete salários mínimos para fazer parte da comunidade pensante. Não obstante, muitos dos livros solicitados não são parte do acervo da Biblioteca Central da UFES.

Tudo isso parece perfeito: pessoas que sequer tinham perspectivas de freqüentar um estabelecimento público de ensino superior, agora agarram “com unhas e dentes” a oportunidade, graças às reservas. Cena perfeita que vai se dissolvendo pouco a pouco, quando as dificuldades, como custos dos cursos, altos índices de reprovação e evasão, incompatibilidade de horários e outros entraves durante a vida acadêmica, vêm à tona.

De acordo com alguns universitários, que pediram para não ter nomes e cursos divulgados, os professores alegam que a aquisição não é obrigatória, contudo, a biblioteca não tem os livros. Para conseguir acompanhar, são obrigados a pagar altas somas em cópias por semana. Uma média que pode variar de R$ 5,00 à R$ 15,00 dependendo do curso.

Discriminação.

Cléber Carminati, coordenador do programa Conexões de Saberes destaca que a pauta recebida pelo professor não separa quem é reservista de quem não é, mas que isso não impedirá o preconceito dentro das salas de aula.

“Os professores de determinados cursos não estão acostumados com essa realidade da reserva de vagas. Estão acostumados com um perfil de alunos quem têm boas condições econômicas, que podem arcar com os gastos enormes com materiais. O preconceito se dará mais no âmbito econômico, como em casos de professores que só permitem que o aluno participe de aula se tiver determinado livro ou material didático.”

Antônio Carlos afirmou que a Secretaria de Inclusão Social tem dois caminhos contra o preconceito aos alunos populares:

“Primeiro é a advertência. Vamos punir quem praticar alguma discriminação contra qualquer tipo de aluno. Nesses casos a Ouvidoria será acionada. Outro passo é manter o diálogo aberto e implantar um caminho didático, como seminários de avaliação ética e institucional, que ajude no processo de adaptação do sistema de reservas.”

Apesar de às vezes ser fácil saber quem ingressou pelo sistema de reserva, numa clara demonstração de que a divulgação das notas em si já agrega um caráter discriminatório em relação aos alunos aprovados nesse sistema, muitos discursam em outra linha de pensamento, e afirmam que se há discriminação ou preconceito, eles não foram manifestados ainda.

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